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- Como é estranho ter saudade de si mesmo - Disse ela, abandonando lentamente seu devaneio e voltando seu rosto para ele. - E é tão frequente eu ter dessas saudades, tão frequente… Pensar em quando eu era uma menina, amá-la, a essa menina, como a alguém que conheci intimamente, com quem partilhei a vida e a felicidade e tudo, alguém que depois perdi, sem ter culpa. Que bom tempo foi aquele! Não imagina o encanto ideal que é a vida de uma mocinha assim, como eu era, que começa a amar. Só a música poderia exprimi-lo. (…) Tudo cheio de claras e frescas flores que mudam de cor, que trocam, entre si as suas cores, lentamente… Tudo vibra em sons alegres, porém, muito suaves, e os vagos pressentimentos ardem e resplandecem como um vinho místico em delicadas taças de sonho, e tudo são cantos e perfumes: mil rastros de perfumes pelas salas. Ah, quando penso nisto, tenho vontade de chorar, e, também quando penso que. se por um milagre tudo isto me fosse dado novamente, eu é que não poderia mais viver aquela vida. Cairia. Numa vertigem.
-Jens Peter Jacobsen - Niels Lyhne.